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Recorde de ações por dívidas expõe avanço do endividamento no Brasil

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Mais de 1,2 milhão de processos de cobrança foram registrados em 2025; apostas online e facilidade de acesso ao crédito entram no radar dos especialistas

O Brasil registrou, em 2025, o maior número da série histórica de processos judiciais para cobrança de dívidas privadas. Foram 1.239.537 novas ações de execução de títulos extrajudiciais não fiscais, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O volume representa um crescimento de aproximadamente 60% em relação a 2020, quando foram contabilizados 772.645 processos.

O aumento ocorre em um cenário de forte endividamento das famílias. Em março de 2026, 80,4% dos lares brasileiros declaravam possuir algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio.

As ações analisadas envolvem consumidores e empresas e são utilizadas para cobrar débitos comprovados por documentos, como contratos de empréstimos e financiamentos, além de cheques, duplicatas e dívidas de aluguel.

O número de processos vem crescendo sucessivamente. Foram 838.701 ações em 2021, 994.098 em 2022, 1.131.730 em 2023 e 1.194.184 em 2024. O recorde foi alcançado em 2025. Entre janeiro e março de 2026, outras 295.541 ações já haviam sido registradas.

Apostas online aumentam preocupação

Embora o crescimento da judicialização tenha diversas causas, o avanço das apostas online passou a ser acompanhado com atenção por especialistas em endividamento.

As plataformas de apostas esportivas e jogos de cassino ganharam espaço entre consumidores brasileiros. O problema se agrava quando o usuário passa a utilizar cartão de crédito, empréstimos, limite bancário ou outras formas de financiamento para continuar apostando.

Em muitos casos, após perder dinheiro, o apostador tenta recuperar o prejuízo fazendo novas apostas. Quando os recursos acabam, pode recorrer ao crédito, criando um ciclo de perdas, empréstimos e aumento das dívidas.

A juíza Káren Rick Danilevicz Bertoncello, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, afirma que relatos envolvendo apostas passaram a aparecer com frequência em audiências de mediação. Segundo ela, embora as bets não sejam incluídas diretamente nos processos de repactuação, consumidores relatam ter contraído empréstimos para continuar jogando.

Um estudo da FIA Business School em parceria com o Ibevar também apontou influência das apostas online sobre o endividamento das famílias brasileiras.

Crédito fácil também preocupa

A facilidade de acesso ao crédito é outro fator associado ao crescimento do superendividamento. Em situações de dificuldade financeira, empréstimos e cartões podem funcionar inicialmente como alternativas emergenciais. O problema ocorre quando o consumidor passa a contratar novos créditos para quitar dívidas antigas.

Com o tempo, as parcelas podem comprometer uma parcela cada vez maior da renda e dificultar o pagamento de despesas básicas.

A Lei do Superendividamento, em vigor desde 2021, criou mecanismos para proteger consumidores que não conseguem pagar suas dívidas sem comprometer recursos necessários para despesas essenciais.

Especialistas, entretanto, apontam que a renegociação ainda enfrenta dificuldades, principalmente quando o consumidor possui vários credores. Resolver uma dívida isoladamente nem sempre é suficiente para recuperar o equilíbrio financeiro.

Endividamento não significa inadimplência

Ter uma dívida não significa necessariamente estar inadimplente. Financiamentos, empréstimos e compras parceladas fazem parte da rotina financeira de muitas famílias, desde que sejam pagos regularmente.

O problema ocorre quando o consumidor deixa de cumprir os pagamentos ou chega ao ponto de não conseguir quitar suas obrigações sem comprometer despesas essenciais, como alimentação, moradia, saúde, transporte e contas básicas.

Um dos principais sinais de alerta é a necessidade constante de contratar novos empréstimos para pagar compromissos antigos.

Dívidas também atingem empresas e produtores

O aumento das execuções judiciais não se limita às pessoas físicas. Empresas também aparecem entre os credores e devedores em processos relacionados a dívidas privadas.

Juros elevados, crédito mais caro e dificuldades de fluxo de caixa podem contribuir para o agravamento da situação financeira de empresas.

No setor rural, produtores também enfrentam dificuldades provocadas por fatores como problemas climáticos, perdas de produção e aumento dos custos. A redução da receita pode dificultar o pagamento de financiamentos e outras obrigações.

Justiça é etapa final da cobrança

A judicialização geralmente ocorre depois de tentativas de cobrança e negociação extrajudicial. Quando o credor não consegue receber o valor devido, pode recorrer à Justiça para buscar patrimônio ou recursos que possam ser utilizados para quitar a dívida.

O recorde de 1,2 milhão de ações, porém, não significa que essa quantidade de brasileiros tenha ficado endividada em 2025. O número corresponde a novos processos de execução e reúne diferentes tipos de dívidas privadas.

Ainda assim, a evolução dos dados demonstra que um volume crescente de débitos está chegando ao Judiciário.

Para especialistas, a combinação entre renda comprometida, juros elevados, crédito acessível e, em alguns casos, apostas online pode transformar dificuldades financeiras temporárias em situações de superendividamento.

O levantamento foi realizado com base no Painel de Estatísticas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

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