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Investigação aponta falhas socioambientais na cadeia de fornecimento de carne do Grupo Mateus

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Relatório da organização Mighty Earth associa fornecedores da rede a casos de desmatamento e trabalho análogo à escravidão; empresa é apontada como a de menor transparência entre os grandes varejistas do país

Uma investigação da organização ambiental internacional Mighty Earth aponta que produtos de carne bovina comercializados pelo Grupo Mateus têm origem em frigoríficos associados a denúncias de desmatamento e trabalho análogo à escravidão. O estudo também destaca fragilidades nos mecanismos de controle e rastreabilidade da cadeia de fornecimento da empresa.

De acordo com o levantamento, realizado entre 2023 e 2025, 54% dos produtos analisados receberam avaliações consideradas negativas em critérios de sustentabilidade. A pesquisa examinou mais de 430 produtos de carne bovina coletados em 38 lojas da rede distribuídas nos estados da Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Sergipe.

As análises utilizaram informações do aplicativo “Do Pasto ao Prato” e do sistema de monitoramento Rapid Response, desenvolvido pela Mighty Earth em parceria com a organização AidEnvironment. As ferramentas avaliam indicadores relacionados ao desmatamento, queimadas e possíveis irregularidades na cadeia produtiva da carne bovina.

Segundo o relatório, parte dos produtos comercializados pela rede foi classificada nas categorias “Muito Ruim” e “Pode Melhorar”, atribuídas a frigoríficos que apresentam histórico de ligação com áreas desmatadas, queimadas ou fornecedores incluídos na chamada “Lista Suja” do Trabalho Escravo, divulgada pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

Outro dado apontado pela investigação indica que 85% dos frigoríficos identificados como fornecedores da rede não aderiram ao Termo de Ajustamento de Conduta da Carne (TAC da Carne), principal compromisso firmado pelo setor para combater a comercialização de gado associado ao desmatamento ilegal na Amazônia.

Atualmente, o Grupo Mateus possui faturamento superior a R$ 36 bilhões e opera mais de 270 lojas em 110 municípios das regiões Norte e Nordeste. A empresa ocupa a terceira posição entre as maiores redes varejistas do Brasil, atrás apenas de Carrefour e Assaí.

O estudo afirma que, diferentemente de concorrentes do setor, a companhia não possui compromissos públicos relacionados à eliminação do desmatamento em sua cadeia de fornecimento de carne bovina, nem divulga critérios de compra, mecanismos de rastreabilidade ou relatórios periódicos de sustentabilidade.

Fornecedores sob investigação

A Mighty Earth identificou pelo menos nove frigoríficos fornecedores do Grupo Mateus que teriam realizado compras, diretas ou indiretas, de propriedades incluídas na Lista Suja do Trabalho Escravo.

Entre eles estão unidades da JBS localizadas em Marabá e Santana do Araguaia, no Pará, e em Araguaína, no Tocantins. A organização ressalta que o número de fornecedores envolvidos pode ser maior devido à falta de transparência em alguns segmentos da cadeia produtiva.

O monitoramento também identificou, entre 2024 e 2025, cerca de 5.147 hectares de áreas desmatadas potencialmente associadas à cadeia de fornecimento da empresa. Segundo a entidade, o número representa apenas os casos que puderam ser rastreados pela metodologia utilizada, podendo haver uma extensão maior de áreas afetadas.

Além de unidades da JBS, o relatório cita frigoríficos como Valêncio, Mercúrio Alimentos, Beef Indústria e Comércio de Carnes, Frigorífico Paraíso e Frigoestrela entre aqueles que apresentaram avaliações mais críticas em relação aos critérios analisados.

Avaliação de transparência

Na avaliação sobre políticas de Desmatamento e Conversão Zero (DCF), realizada pela Mighty Earth em parceria com o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), o Grupo Mateus recebeu pontuação zero.

Segundo o relatório, a empresa não divulga critérios públicos para aquisição de carne bovina, não possui sistemas públicos de rastreabilidade e não aderiu ao Protocolo Boi na Linha, iniciativa voltada ao fortalecimento do controle da cadeia pecuária na Amazônia.

A organização afirma ainda que tenta contato com representantes do Grupo Mateus desde 2024 para tratar dos resultados da investigação, mas não teria recebido retorno até a conclusão do relatório.

O estudo também relembra que, em 2009, a empresa foi notificada pelo Ministério Público Federal em uma ação relacionada à comercialização de carne bovina associada ao desmatamento na Amazônia. Na ocasião, o órgão alertou sobre a possibilidade de responsabilização solidária por danos ambientais caso as aquisições fossem mantidas.

Até o fechamento desta edição, não havia posicionamento público do Grupo Mateus sobre as conclusões apresentadas pela investigação.