Há uma linha — e ela não é invisível. Ela é clara, ética, necessária. É a linha que separa o jornalismo da vigilância. O jornalista não é espião. Não pode ser. Não deve ser.
O jornalista conduz a notícia. Ele ilumina fatos, contextualiza, questiona, equilibra. Ele não persegue pessoas. Ele não transforma a vida privada em espetáculo diário. Ele não escala a intimidade como se fosse um roteiro de série.
Quando Flávio Dino governava, houve críticas. Houve acertos e erros — como em qualquer gestão. E isso é legítimo. Isso é democracia. Isso é jornalismo.
Mas o que se vê agora ultrapassa essa linha.
O que se vê não é crítica.
É monitoramento.
Não é investigação.
É obsessão.
Não é interesse público.
É exposição contínua.
O caso envolvendo o blogueiro Luis Pablo levanta perguntas que não podem mais ser ignoradas.
Quem ganha com essa escalada?
Quem alimenta essa coragem súbita?
Quem transforma o local em nacional — e rapidamente, em internacional?
Porque isso não é orgânico. Não parece espontâneo. Não tem o tempo natural das notícias. Não segue o fluxo comum da relevância pública.
Há algo por trás.
E quando há algo por trás, deixa de ser jornalismo — e passa a ser instrumento.
Nem mesmo o assassinato de Décio Sá teve a velocidade, a reverberação e a amplificação que este caso teve. Isso, por si só, já exige reflexão profunda.
Por que agora?
Por que assim?
Por quem?
A Supremo Tribunal Federal não age por impulso. Não mobiliza sua estrutura por um ato isolado, pequeno ou irrelevante. Se há movimento, há indício. Se há atenção, há suspeita de algo maior.
E aqui está o ponto central:
O STF não investiga jornalistas.
O STF investiga possíveis estruturas.
Possíveis articulações.
Possíveis organizações.
Porque, se fosse apenas um homem, não haveria tamanho impacto.
E isso nos leva a uma reflexão institucional séria:
Não se abre uma devassa sobre uma Corte sem base legal, sem rito, sem autorização. O caminho é claro — passa pelo Senado, passa pelo devido processo, passa pelo respeito às instituições.
Qualquer atalho é perigoso.
Qualquer espetáculo é suspeito.
Qualquer manipulação é grave.
Se há algo a ser investigado, que se investigue — dentro da lei.
Se há críticas a serem feitas, que sejam feitas — com responsabilidade.
Mas transformar vigilância em jornalismo é corromper a essência da profissão.
E talvez — só talvez — o que mais se espera agora não é barulho.
É lucidez.
Porque quando o jornalismo perde sua essência, alguém sempre está ganhando com isso.
E raramente é a verdade.
Sirlan Sousa
Jornalista, Apresentadora e pré candidata a deputada federal